Devo ser mais prudente! Devo ser tão profundamente astuto como a minha serpente.
Peço, porém, o impossível; rogo, portanto, à minha altivez que acompanhe sempre a minha prudência! E se um dia a prudência me abandonar – ai! agrada-lhe tanto fugir! – possa continuar a minha altivez a voar com a minha loucura!
Assim Falou Zaratustra, Preâmbulo de Zaratustra, X.
Não é pouco saber dormir; para isso é preciso ficar acordado o dia inteiro.
Dez vezes ao dia deves saber vencer-te a ti mesmo; isto cria uma fadiga considerável, e esta é a dormideira da alma.
Dez vezes deves reconciliar-te contigo mesmo, porque é amargo vencer-nos, e o que não está reconciliado dorme mal.
Dez verdades hás de encontrar durante o dia; se assim não for, ainda procurarás verdades à noite e tua alma estará faminta.
Dez vezes ao dia precisas rir e estar alegre, senão incomodar-te-á de noite o estômago, esse pai da aflição.
Embora poucas pessoas o saibam, deve-se ter todas as virtudes para dormir bem.
Assim Falou Zaratustra, Os Discursos de Zaratustra, Das cátedras da virtude.
Já não tenho confiança em mim desde que quero subir às alturas, e já nada tem confiança em mim. A que se deve isto?
Eu me transformo muito depressa: o meu hoje contradiz o meu ontem, Com freqüência salto degraus quando subo, coisa que os degraus não me perdoam.
Quando chego em cima sempre me encontro só. Ninguém me fala; o frio da solidão me faz tiritar. Que é que quero, então, nas alturas?
O meu desprezo e o meu desejo crescem a par; quando mais me elevo mais desprezo o que se eleva. Que é que quer ele nas alturas?
Como me envergonho da minha ascenção e das minhas quedas! Como me rio de tanto anelar! Como odeio o que voa! Como me sinto cansado nas alturas!
Assim Falou Zaratustra, Os Discursos de Zaratustra, Da árvore da montanha.
O nobre quer criar alguma coisa nova e uma nova virtude. O bom deseja o velho e que o velho se conserve.
O perigo do nobre, contudo, não é tornar-se bom, mas insolente, zombeteiro e destruidor.
Ah, eu conheci nobres que perderam a sua mais elevada esperança. E depois caluniaram todas as elevadas esperanças.
Desde então têm vivido abertamente com minguadas aspirações, e dificilmente traçam meta para mais de um dia.
Assim Falou Zaratustra, Os Discursos de Zaratustra, Da árvore da montanha.


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